02 Março, 2007

Avassaladoras

Do jardim só as rosas a espiavam. Sentada no sofá da sala; olhando, indecisa, para a tesoura de jardinagem. Tarde de sábado chuvosa. A MTV reprisava pela 69º vez o VMA, com o polêmico beijo da Madonna na Britney Spears. Algo que podemos definir como: o beijo da boca do luxo na boca do lixo.
Era difícil acabar com tudo em questão de minutos. Depois de meses de preparação, ela iria praticar seu ato preferido. De qualquer forma, ela resolveu ler a NOVA na tentativa de adiar sua decisão. Afinal, a busca é melhor que a conquista.
Com a ponta dos dedos perfumadas, pelas páginas da revista, ela notou como a tristeza de uns é lucrativa para outros.
As revistas dão a receita de como ser feliz, deixar ele louco por você, levar o amado ao altar, perder 15 quilos em um mês, manter o casamento perfeito – essa dica, vem sempre acompanhada com a foto do ´´ casal 20´´ na beira da piscina. As floriculturas fizeram a festa com a morte da princesa Diana. As funerárias americanas, dobraram as vendas depois dos atentados, mesmo com caixões simbólicos.
Se você está entediado? Ligue para o chat amizade. Sozinho? Leia um bom livro ou ligue pro serviço de acompanhantes. Deprimido? Vá ao mercado e encha o carrinho. Brigou com a namorada? Kristaly Joalheria. Traída pelo marido? Conheço um pai-de-santo.. ou quem sabe um sex-shop..
Depois desta constatação, o veneno pra ratos juntou-se à tesoura de jardinagem. Ela jogou a revista num canto e trocou de canal.
´´ Avassaladoras´´. Esse era o filme. Uma comédia romântica bem clichê: quatro amigas, à beira dos 30, atrás do homem perfeito. Seria um estouro de bilheteria se fosse uma produção hollywoodiana; premiado em todos os festivais , tema de crônicas e de teses pseudointelectuais, se fosse uma película do Almodóvar; ou simplesmente um filme ´´cult´´: muito comentando e pouco visto. Mas é filme nacional, fadado a mofar nas prateleiras das vídeo locadoras.
E daí? O que ela tinha a ver? Nada. É que resolvera tomar as dores de todo o mundo. A espingarda, herança do avô, foi fazer companhia ao veneno de rato e à tesoura de jardinagem.
Ela não tinha ´´ ele´´ pra enlouquecer, era feliz dentro das possibilidades, não tinha amigas para sair à caça. Nada além de um feixe de idéias que lotariam qualquer biblioteca, uns cd´s da k.d. lang e um cachorro bem-dotado.
Com a espingarda em punho, decidiu que mais ninguém teria lucro com a sua existência - no auge do desespero, havia esquecido da funerária. Danem-se as religiões que tentam aumentar o rebanho, a telefonista da APAE querendo doações, o analista que sempre a mandava voltar, o proprietário da casa. Ela voltou a arma para si, sentiu o gosto da ferrugem no céu da boca.
No céu.... Ela me observa lá embaixo. Vê-me sentada no chão da sala (porque o sofá foi pra estofaria), limpando o ouvido, escutando Oasis, assobiando o Hino da França e inventando o SEU drama.
Sabe aquela historia, ´´ ...à sua imagem e semelhança´´? Pois é. Decepção. A criatura conheceu o criador. A arma está apontada para mim.
As rosas do jardim começam a pegar fogo. Eu aperto o delete. Pronto, a epifânia jamais aconteceu.
Do jardim, só as rosas a espiavam. Sentada no sofá da sala, indecisa olhando para a tesoura de jardinagem. Tomou coragem, baixou as calças, pegou a enorme tesoura e começou a destruir sua mata amazônica....

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