
Que hoje é um novo dia? Eu sei. Percebi isso enquanto relutava em abrir mais uma garrafa de Coca-Cola para refrescar as poucas idéias que venho tendo. Queria andar de bicicleta pelas ruas do Centro, pintar de vermelho escarlate as paredes do apartamento, tirar Chet Baker da vitrola, usar as camisinhas que jazem na minha carteira, ler os livros baratos que compro no sebo, abrir o vinho tinto que guardo para uma ocasião especial, encher as páginas alvas do meu diário, que também aguardam por uma ocasião especial.
Ó sim, os portões da fazenda já se abriram pra mim há tempos, mas pra toda a ação é preciso um impulso, um começo, e princípios são tão complicados. São muitas coisas a dizer, a fazer, a cabeça pipoca de idéias e frases geniais, que fogem enquanto procuro desesperadamente uma caneta.
E para desvirginar minhas camisinhas? Nossa, é uma sorte infinda de esperanças vãs, uma sinfonia de campainhas telefônicas que ressoam somente na minha cabeça, punhados de falsas promessas e de frases de auto-ajuda.
Assisto ao Vale a Pena Ver de Novo, verto filetes de lágrimas ao ouvir qualquer melodia que me emocione, ordens de despejo e cartas de aviso do SPC entopem a caixa de correios, a terça-feira voa de carona nos ônibus que cruzam a avenida. E eu? Rabisco esses parágrafos desconexos, penso na melhor forma de escrever sobre começos, para colaborar com um grupo de escritoras com tendências suicidas - pra ser sincero eu não entendo muito de começos, pois minha vida sempre começa quando já estou perto do fim.
Suicidas, foi isso que estava escrito no envelope verde que fedia à perfume vagabundo, um tal de Pelotão Suicida. Hum...Elas vão escrever sobre coisas; “bem, se é uma junção de mulheres, certamente vão falar mal de homens!” Precipita-se meu lado machista e preconceituoso, que só conhece reuniões de calcinhas quando espia a vizinha estendendo roupas no varal.
Ainda relutante em abrir a garrafa de Coca, desenho nos azulejos cândidos traços e nuances de cada integrante deste Pelotão e me preocupo em escolher com qual delas encherei minhas camisinhas -
O jornal da tv disse que há cinco assassinatos por hora no Brasil; o pastor nos alerta, por alto-falante; que o fim está próximo; as crianças queimam formigas na hora do recreio; na “Fobia“ da Silva as mulheres ensandecidas, e de meia-calça rasgada, lacrimejam sobre os divãs dos psicanalistas; num hospital do interior, me avisou mamãe, minha tia-avó espera pelos novos aparelhos para hemodiálise ou pela morte – sorte de quem vier antes.
Então, como posso falar de começos se todos os dias só vejo o caminho do fim? Mas, pensando bem, quem se importa com isso? Ora, se enquanto o pastor vocifera sobre o apocalipse, na frente do Mercado Publico, nós estamos mais preocupados em tomar o ônibus a tempo; as formigas queimadas? Ora, uma a menos para sujar meu açúcar; as mulheres descornadas? Só nós trazem lucro, pois, elas dão mais fácil e enchem os bolsos das academias ou das indústrias de chocolate; minha tia-avó morrendo? Bem, daí já é outra história, pois terei que ir ao enterro e encarar uma fila de falsos pêsames.
Acho que estou amortecido, nada mais inspira nem causa revolta. Não sei falar de começos, mas também não quero dar fim a nada. Já me acostumei, é sempre assim: esperamos por portais, ícones, pontos de referências, placas comemorativas que nos indiquem um início, como quem guarda uma garrafa de vinho há anos. É como se tivéssemos uma adega de sonhos, objetivos e planos abortados.
Enquanto enceno mais um começo, um fim está afogado num pote d´água, quer dizer, meu canário está morto na cumbuca de água enquanto eu pensava em renascer. Acho que foi enquanto eu digitava o terceiro parágrafo, pois, ainda ouvi seu canto enquanto olhava o movimento da avenida.
Vou por uma toalha branca na mesa, duas taças de cristal, um vaso cheio de uvas vermelhas e graúdas, e degustar do melhor vinho que tenho. Mas quem disse que isso é um começo? Começos existem ao acaso, os melhores de forma imperceptível... guardo o vinho vinho, devolvo Chet Baker ao seu santuário e abro uma lata de Polar, só pra variar da Coca. Amanhã penso no que escrever pra essas malucas.
1 comentários:
Hm... mt bom o conto.. mas dessa vez não lembra Juremir Machado
Postar um comentário