12 Outubro, 2007

Trimegisto, o herege.


Me chamo Trimegisto. Trimegisto significa “três vezes grande”. Ok, ok, mamãe exagerou, pois apesar de não ser tão desprezível estou longe de ser um Kid Bengala. Era pra ser Hermes Trimegisto – é, aquele mesmo das leis herméticas - mas o escrivão não deixou porque já tinha ouvido falar de um tal de Marechal Hermes e na dúvida se ele era ou não da turma do Marighela, preferiu censurar a pesquisar.

Faço Direito. Entrei pelo status e continuo lá – firme, forte e sempre atrasado – mais pelas gurias. Não que eu odeie peticionar e revisar relatórios, mas ver as colegas rebolando e tentando esconder a falsidade das suas bolsas Victor Hugo me diverte mais.

Estou naquela idade em que um homem de futuro promissor já deveria ter um carro próprio e um terno cinza escuro enfeitando o armário, mas não tenho nem um Voyage pra quebrar o galho. Moro com mamãe, que ainda briga quando espalho meus quadros pelo corredor. Esqueci de dizer que sou um artista amador: toco violão – mas só Ramones – e faço uns recortes dignos de pré-escola na tentativa de imitar Henry Matisse.

Para quem não me conhece, sou o cara que está de pé no meio da pequena igreja lotada sendo mirado pelos olhares apocalípticos do padre. Como vim parar aqui? Bem, prezado leitor, já que perdi uns minutos contando não custa falar mais.

Acordei dia desses com uma estranha vontade de ir pra aula – talvez fosse um sentimento de culpa aterrador, pensei em meus parcos conhecimentos pseudofreudianos. Enquanto esperava o banco do ônibus esfriar daquelas nádegas desconhecidas e, talvez, com furúnculos, veio uma guria cheia de marra e sentou. Emputeci na hora, mas minha elegância típica de libriano conseguiu disfarçar e fingir que era tudo irrelevante.

As aparências até enganam, pois a guria se ofereceu pra carregar meu Código Civil Anotado, aceitei e acabamos conversando. Confesso que a princípio estranhei as gírias – gíria não, dialeto -, as roupas e seu adorável jeito de louca. Não é preciso ser muito sábio ou ter lido mais que doze páginas daqueles romances de banca de revista pra saber que aquela conversa deu em namoro.

Passeios no parque, sessões de cinema, almoços com bife à milanesa, até chegar a convocação derradeira: amor vamos tocar na Igreja? Ela me conheceu num momento frágil onde a tolerância era a palavra de ordem. Aceitei e ensaiei alguns acordes básicos do CLJ.

O dia chegou. 23 minutos antes de estar aqui, de pé. Observei com estranhamento o rebanho de Deus, tão sábios e resignados: do meu lado um cara promete amor eterno ao Senhor – tentando alcançar no grito a afinação ideal –, Hosana nas alturas (mas quem é essa mulher?!) e o fatídico sermão.

Confesso que jamais senti síndrome do pânico, mas tive meu momento Luciana Vendramini e te digo: é uma coisa muito séria. E como um salvador, encarnei um Dom Abolição e gritei:

- Porquê? Puta que pariu, mas eu não pequei!

Silencio. Um escarro guardado no canto da boca escorria dos meus lábios semicerrados. Trimegisto, seu cuzão! Não havia como me esconder, nem areia no chão pra guardar um punhadinho e jogar nos olhos do carrasco. Saí, correndo, babando, com medo, enquanto a água benta escorria pelas escadarias.


1 comentários:

Alexandre disse...

Dessa vez eu vou ter quq dar uma de advogado do advogado do diabo: pô, nada mais chato do que um religioso tentando te convencer que você é a causa da decadência do mundo.

Mas por que o Taxi Driver?