
´´ Havia treze fêmeas naquela biblioteca, só podia ser capricho do destino somente uma delas ter um absorvente. Pior: Tampax Super. Destino cruel, atroz: ela estava de branco, não tinha como disfarçar. Tal como nos filmes de terror, o demônio fareja seu sangue virginal – ela estava no cio e sem absorvente. Tampax é a solução.
Banheiros perto de bibliotecas são tão limpos... As paredes brancas, o papel higiênico nunca falta, a privada está sempre limpa e o cesto de lixo vazio.
Ela sentou na tampa da patente e observou o Tampax. Pô! Anos de abstinência, dúvidas, freadas de ímpeto para ser inaugurada por um tampão!? – mais decepcionante que isso, somente sendo vasculhada e remexida por um grupinho de residentes, que como ginecologistas são ótimos recheadores de peru de Natal.
Banheiros perto de bibliotecas geralmente são desertos, porém havia alguém na cabine do lado e não era por necessidade fisiológica``.
Parece paranóia, mas a verdade é que estamos sempre sendo observados. Seja por um infeliz sem walkman em uma longa viagem de ônibus; por um aspirante a psicólogo e afins, querendo desvendar a essência da alma humana; pelo olhar vesgo e distante de alguém submerso em seus próprios pensamentos e devaneios; por um apaixonado platônico ou um assassino/estuprador (do jeito que as velhinhas usualmente imaginam - seria um desejo reprimido?).
As mães e as carolas nos ensinam que Deus está vendo e anotando tudo, ´´lá de cima´´. E é nesse vouyer divino que pensamos quando batemos a cabeça do gato contra um muro e depois o jogamos para um dobermann, brincamos de médico, acendemos vela na encruzilhada, cantamos a música da Alcione - heresia maior impossível!
A idéia (arraigada nos porões da mente) de que estamos sempre com Deus, ou outros seres, nos momentos mais sórdidos e íntimos, demonstra que, inconscientemente, somos um pouco exibicionistas. Apesar de alguns vacilarem em escapulir para o banheiro nas madrugadas solitárias, como Raul Seixas que lembrava: ´´ Deus sabe de tudo que cê faz.´´. É, cristianismo é pura culpa.
´´ Ela resolveu surpreender seu observador divino, pois 23 anos de cesura livre enche o saco. Deixou a porta da cabine entreaberta e começou a interagir com o Tampax, quando um par de olhos negros surgiu no vão da porta.
Seria um golpe do destino? Um sinal de vida? Uma mão amiga? Aprende-se no ´Show da Fé´ que: quando surge uma oportunidade, segure firme na mão de Jesus e ele te guiará no caminho.
Ela puxou a ´mão amiga´ - nesse caso, não era exatamente uma mão, e muito menos a de Jesus, se bem que faxineiros não usam crachá – abriu suas vias, pernas e narinas.
Arou a terra. Consumou o fato na cabine do banheiro. Esfolada, colocou o Tampax. Saiu do banheiro como uma cadela corrida. Tão cedo eles não se cruzariam – seja em que sentido fosse.
Na volta pra casa, um corpo coberto por um plástico verde, estirado no meio da avenida. A chuva forte deixava transparecer o rosto pálido de uma criança morta, a dois metros da roda do ônibus. Curiosos em volta, satisfeitos com o sucesso do desastre.
Tudo estava suspenso no ar, os problemas pareciam tão pequenos. Ali estava um descuido de Deus. O azulzinho apita. Os carros seguem. O tempo não pára. Os problemas voltam a ter grandes dimensões: ´porra! Cadê a corda do tampax!```
0 comentários:
Postar um comentário