
- Bingoooo!!
Corações pararam de bater, o tilintar de copos silenciou, os grãos de feijão sobre as cartelas tremeram movidos pela força do grito de Rôla. Tomás Rôla não falava há dois anos; bilheteiro de cinema, só se comunicava por obrigação laboral: “Sala tal, bom filme”. Um menear de cabeça, o bater de pestanas e o arroz na ponta da mesa era solicitado por meia dúzia de gestos. Ganhou o apelido, quase óbvio, de “criado-mudo”.
- A situação está caótica, rumo a hecatombe total. Precisamos nos insurgir contra a ganância pérfida do imperialismo norte-americano. Construir um novo mundo! - Bradava Rôla, semblante grave, suor encobrindo as sobrancelhas, em meio ao congresso do diretório dos estudantes. Famoso pelos discursos notáveis, por detonar garrafas de rum e indefectível em seu boné preto à Milton Nascimento.
De repente.
Silêncio.
Rôla balbuciou meia dúzia de palavras ininteligíveis, largou o microfone na mesa e atravessou a multidão ainda ruidosa pela fúria do discurso incompleto. Saiu sem explicar como puxar o rabo e apagar o fogo do dragão imperialista. Atravessou, incólume, o campus da faculdade. De allstar surrado e bandeira chamuscada, foi para casa reler o jornal do dia. Era a última vez que se ouvia a voz de Rôla.
As teorias e suposições pipocaram pelos corredores da faculdade e ruelas do seu bairro, uns dizem que foi mal de amor, outros um salário aquém do esperado, os maldosos dizem que Rôla, em meio ao discurso, viu um colega saboreando uma Coca-cola. O certo é o silêncio sem aviso.
A família tentou de tudo: médicos, acunputuristas, pais-de-santo. Ansiavam por sua opinião, pelo seu discurso matinal, com a boca cheia de sucrilhos, de que os jornais renovam as mentiras a cada café da manhã. Mas o único som que imperava em seu quarto era a voz de Joni Mitchell misturada ao chiado da vitrola.
Com o tempo tornou-se o confessor da vizinhança. Um homem que sabia guardar segredos, daqueles que as velhotas procuram no corpo sinais de traços transcendentais. Na poltrona do quarto, acariciando o dorso do gato malhado, Rôla ouvia atentamente o reclame dos vizinhos: Darcy, o encanador, tinha sérias dúvidas quanto a sexualidade; Márcia, a organista da igreja, roubava moedas do dízimo e temia a influência sinistra do encontro de Saturno com sua Lua em Júpiter; Rosana temia que descobrissem quem era, de fato, o pai do Pedro: seu próprio pai.
A verdade era uma só e sangrava pelo canto dos olhos de Rôla: falar, se expressar, é se exibir – escreveu Rôla no papel de pão – do que se veste ao que se diz, tudo está sendo feito para ser submetido ao julgamento dos outros. Procuramos pares, cooptamos mentes.
No dia do discurso, naquele momento em que via tantos olhos encherem-se de certezas e o balançar vertical dos queixos, viu o seu futuro (e, baby, ele era passado), viu o mundo recheado de oposições cobrando sua opinião; e naquele instante ele subiu no muro, abandonou a causa. Acovardou-se ou lavou as mãos? Ou quem sabe ambos não são sinônimos? Que se danem os “ismos”, as visões de futuro e as criancinhas que catam arroz no chão da África. Rôla decidiu guardar tudo de seu para si, decidiu ser egoísta, deixar tudo como está – ouviu a mãe Maria susurar: let it be, let it be. Da estante de discos, livros e rabiscos guardou tudo que sabia para si só.
Até o dia do bingo. O sorriso zombeteiro dos velhinhos do bingo reanimou o sentido de competitividade latejando em seus culhões, ainda hesitante, Rôla bateu na mesa e gritou que o liquidificador Walita era seu - a possibilidade de triturar pedras de gelo era algo inebriante.
Depois do bingo todos queriam ouvir sua voz. Da queda da bolsa ao vestido da prima Lurdinha. “Não, pai, a esquerda ainda têm fôlego sim. Foi preciso assumir nossos erros, pra voltarmos triunfantes para o caminho traçado”, “Vestidos abaixo dos joelhos deixam suas pernas mais curtas.” Cantou no karaokê, sorriu alegremente.
Os vizinhos temeram porque Rôla sabia demais, era preciso domesticá-lo. Na mesma noite o silencio voltou a imperar: no espelho do banheiro, com a barba inacabada, Rôla lembrou que sabia demais, mas não tinha nada de novo a dizer
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