30 Março, 2008

Terra dos Falos



- O que eu faria se tivesse um pau por um dia? Ah, baby, pegaria o Restinga lotado e me esfregaria nas bundas cansadas, faria xixi na rua na tentativa de alcançar a copa das árvores, coçaria o saco de forma máscula, dançaria bolero contigo e depois te daria uma “surra de pica”. – Sorriu. Suada e latejante, serpenteando pelos lençóis sujos.

Ele vestiu a cueca rapidamente, com medo que ela comesse suas bolas, mergulhando-as em um copo de Coca-cola. Definitivamente, um cara que não entende ironias. E ela era um poço de ironia, transbordando sarcasmo por todos os poros.

O sol assusta e avisa sobre o atraso. Espreguiçando-se, abre os olhos lentamente, no vai e vem dos quadris, com as mãos ainda dormentes, desce o ventre em busca da vulva; seus dedos na virilha encontram um membro intumescido, levemente umedecido, fugindo pelos cantos da calcinha fio dental.

- Ereção matinal é um saco! – resmungou, de boca seca e olhos remelentos.

Percorreu as coxas de seu macho em busca do falo, que estava ali, murcho, guardado nas cuecas de elástico cedido. Correu pro banheiro assustada, sem olhar para baixo, tropeçando nas havaianas, temerosa de confirmar a estranha sensação de um pedaço de carne balançando entre suas pernas.

Seria uma maldição das ciganas do centro? Um regalo da fada do dente? Ajoelhada no box sujo, de olhos bem fechados, torceu para que fosse uma ilusão de ótica provocada pelo excesso de rum, mesclado à overdose de filmes do Kid Bengala. Mas o fato crescia lentamente, milímetro a milímetro, revelando sua cabecinha rósea. Yes, baby, ela tinha um pau e estava excitada.

Era preciso dar um jeito, minha amiga, e de mãos ainda trêmulas, murmurando “I Touch my self”, saciou-se e deixou os fluídos escorrendo pelo azulejo. Guardou os culhões na calça preta com risca de giz e abandonou seu guri predileto, roncando no canto da sala.

Qual a maneira mais delicada de se coçar um saco? Esfregando-se, discretamente, no poste da parada de ônibus e colocando a bolsa em frente da virilha...

- Ô, tia... ô, tia... tem um trocado que to com fome? – pede o guri do loló, dono de um faro incrível para niqueleiras recheadas.

- Olha, hoje só tenho pra passagem.

- Mas tia... ô tia, pra comprar um pão... ô tia... to com fome. Poxa. Só um trocadinho, pra comprar um pãozinho, um cachorro, uma bolacha.

- Tu acha que não tenho culhões pra dizer não? Não dou, não dou, não dou, seu filho da puta. Quer um cacetinho? Então pega esse aqui – e abaixou as calças enquanto a criança corria, assustada, pro seu recanto a beira do Dilúvio.

Péssimo dia para ter culhões: o sol escaldante inibia qualquer mijada em postes e ela estava atrasada para a sessão de yôga. A psicanalista fazendo compras em Praga e ela dizendo “alô”, sem resposta. O cartão do celular acabando e o ônibus - que só tinha bundas murchas e broxantes para se esfregar – sendo assaltado. Fugiu pela porta dianteira e atirou-se no primeiro carro vermelho que viu.

- Bom dia, dona! Qual o endereço?

- Bom dia?! Só se for pra ti, meu amor! As muriçocas me carnearam a noite inteira, estou super atrasada, assaltaram o ônibus e, pra completar, perdi minha vagina!! Sim, senhor! Minha vagina sumiu! Eu tenho um pau, é segunda-feira, não tem festa, nem bebedeiras, não vou encontrar nenhum buraco decente pra me enfiar!! Meu Deus, e se amanhã eu acordo monoteta? Ou frígida? Me diz?! Me diz?!

- Já ouviu falar em dominação, meu bem? – sussurrou o taxista, enfeitiçado por suas panturrilhas torneadas.

- Vem, vem que eu te estoco sem parar, até furar teus rins!! – feliz, abrindo o fecho e deixando escapar seu membro enrijecido.

O vento forte no cóccix. Uma dor latente no ventre. Buzinas. O piche do asfalto perfurando os poros do rosto.

Teve muita sorte em não ter sido amassada pelo táxi em marcha ré. Ainda desbaratada, em meio ao burburinho dos curiosos e sedentos por sangue, ela corre e adentra a primeira porta que vê.

A reunião do grupo de feministas abortistas já começara - com uma bela reivindicação pelo direito das mulheres de fazer xixi em pé - quando ela chegou, interrompendo a retórica da companheira com o barulho irritante do sapato mocassim e o joelho ensangüentado, manchando o parquet do salão.

- Tirem seus rosários de nossos ovários! – gritavam, dúzias de mulheres ensandecidas. Entre elas, uma com barriga postiça chamava a atenção, pois, começou a se soquear e, de cócoras, tirou de dentro da blusa um boneco do tamanho de um feto e segurando-o pelos calcanhares gritava a plenos pulmões: Tirem seus rosários de nossos ovários!!!

O fecho estragado deixava entrever o estranho volume entre suas pernas e a cabecinha rósea, rasgando a calça preta com risca de giz. Bela hora para ficar excitada, ela que só queria sentir, nervo por nervo, a onipotência de violar buracos alheios.

Não havia onde se esconder, as feministas exalavam virilidade pelos quatro cantos do salão. Era questão de tempo para sentirem o odor do sêmen a escorrer pelas coxas e queimarem, com rolha e piche, sua glande.

Ajoelhada, no meio do salão, pegou uma faca de serrinha da bolsa. E no transe rasgou seu novo membro e tentou extirpar a dor do ventre.

O ronco do seu macho ecoava pela sala. Sentia o braço pesado dele, repousando sobre os seios, tudo não passara de um sonho. Mas a dor no ventre ainda resistia e descia rasgando-a por dentro, até que um pequeno duende verde da Terra dos Falos (com a longa barba feita de pêlo pubiano), envolto em secreção rasga seus grandes lábios. Sorrindo, ele baila em sua virilha a cantar:

- Eu sou cria da tua costela!!

1 comentários:

bruno bandido disse...

muito bom, o último post e o blogue inteiro.

não pensava em encontrar duas mulheres que soubessem misturar tão bem a mistura pop, como ousadia feminia e inteligência!