“- Acordei como quem acorda de um gozo. Não, não posso mentir pra ti. Sim! Sim, eu tive um gozo! Um gozo profundo e intenso, indescritível em palavras, talvez em gritos, mas não posso gritar por aqui. Quando voltei do céu vi um porco suado em cima de mim, proferindo elogios clichês, achando que me fazia a fêmea mais satisfeita do mundo. Depois de tanto delírio; só consegui sentir nojo e sujeira. Entre gemidos ridículos e caretas patéticas, me sentia uma Geni – não havia zepelins gigantes, nem reclames da cidade, mas sei que seria apedrejada, que me jogariam bosta, pois fui feita pra apanhar, pois sou boa de cuspir.
Na névoa azul daquele quarto desconhecido - de olhos bem fechados para disfarçar o que via - resolvi equações, pensei no descompasso do prazer. Fui e voltei e poderia ter ido de novo, e ele estava no meio do caminho, no meio das minhas pernas.
Cheguei em casa mais sozinha que antes. O banho em água fervente embaçava o espelho, mas não calava os gritos. Sentei no chão ao lado das violetas semimortas.Atirei os discos pela janela, quebrei batons, rasguei os rascunhos das teses.
Corri pro Salgado Filho, peguei o último Varig que capengava pelos céus, em três horas avistei o Cristo Redentor de braços abertos e rosto cansado. Percorri a orla, salguei os pés, saudei Iemanjá pelo fevereiro atrasado, sabia o que iria fazer: casar com Chico Buarque! Sim, ninguém poderia me conhecer melhor do que eu!
Na frente do prédio Dele, nessa rua que apesar dos prédios serem maiores, ter mais pessoas e o ar ser mais quente me lembra, e muito, Capão da Canoa (não sei porque, acho que é o mar que me lembra...) Mas, então, como eu ia dizendo pra senhora: cheguei ali no prédio e vi que não tinha buquê! Pode?! Então, vim pedir uma meia dúzia de rosas brancas pra celebrar nossa união.
Depois do meu monólogo quase ininteligível, a velha do cesto de rosas, coçou a cabeça branca e me perguntou num largo sorriso que mostrava o seu incisivo de ouro já desvalorizado:
- A mocinha vai se casar com o seu Chico?
- Sim! Minha terapeuta disse que o meu maior defeito é me jogar no mundo com paixão demais, mas sei que dessa vez vai ser diferente! Ele faz tudo diferente, dum jeito que só eu sei. – respondi.
- Bem, olha só, dona Geni... Eu dou uma rosa pra você, porque se apaixonar é tão bonito não é! Eu também tive meus amorzinhos, sabe? Nossa, o Alaor então... hm... É tão difícil de esquecer – lembrava a velha, com os olhos brilhantes e agradecidos por relembrar prazeres antigos, lhe arranquei um sorriso esquecido.
Saí feliz, com uma rosa branca nas mãos e o véu, ainda úmido, na cabeça. Sentei aqui, na frente do prédio, e estou a esperar. Tem dias que demoram pra passar, então dou uma volta pela quadra, vejo as crianças crescerem, a sinuca dos velhos do bar e até ganho pastéis, por piedade. Se nessa vida já fui Teresinha: à espera de alguém que me deite na cama e me chame de mulher; sou Anna das docas, dos diques, das bocas, das ruas; teve até uma vez que fui Rita e emudeci o violão de um homem pela vida; agora me sinto Geni, apesar de não ter salvo nenhuma cidade.”
Isso ela contou pra mamãe, enquanto esperávamos o ônibus. Eu entendia pouca coisa na época, estava com o rosto pintado de verde-amarelo e camisa preta, protestando contra um presidente que tinha roubado o nosso dinheiro e até o do Seu Altair, o porteiro do prédio.
Me acostumei a vê-la de vestido encardido e véu rasgado. Dia desses, um homem idêntico ao Chico passou por ela, os olhos brilharam, alegres, com o fim de tanta espera; mas seus dentes logo, logo, se guardaram, pois não havia mais rosas brancas, só folhas mortas, o batom já estava seco e o tempo a comera, feito traça, num vestido de noivado.
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