- Alguma coisa mudou. - sentenciou a cartomante, dos lábios de cobra, no ar de cigarro. Não, não há cortinas azuis estreladas, turbantes, vestidos brilhantes, nem unhas longas e vermelhas, cílios postiços, bola de cristal. É só uma sala meio iluminada, enfeitada por fotos e penduricalhos, onde no sofá descansa um tricô inacabado.
Do outro lado da mesa de vidro, num misto de alegria e desespero, ela revira cada gaveta de sua memória, os cantos empoeirados, o cofre de seus segredos, os papéis amassados com os rabiscos de hipóteses e devaneios. Nada! O que havia antes? O que tinha mudado? Isso, nem a velhinha, que embaralhava o tarô de Lenormand, poderia dizer.
Descendo as lombas do Centro, ainda encantada pelas palavras da cartomante que lhe prometera o mundo, não percebeu o clima tenso nas ruas: as crianças corriam para casa, os profetas do apocalipse anunciavam o caos, janelas com bandeiras vermelhas apedrejadas, bandeiras do PT eram queimadas, as lojas fechando, a imagem de Lula chorando tomou conta de todos os canais de tv, as prostitutas entediadas jogavam dama nas calçadas.
Lula renunciou por causa da pressão das forças ocultas, o vice iria assumir, a militância do PT estava indo para o Centro incendiar a prefeitura. E ela? Bem, ela caminhava incólume entre a multidão, em meio a fumaça das bombas, e os trapos vermelhos queimados; feliz com a sua vida futura (“alguma coisa mudou, alguma coisa mudou” repetia incessantemente).
Um batalhão de soldados se aproximava, os manifestantes fugiam, e ela ficou ali parada, a olhar o infinito, tal como uma Barbie – sim! Ela era uma Barbie mal vestida, a gritar, atônita, no meio da rua: assim como um filme que já sei o final, eu me pergunto o que devo fazer pra que aconteça o que ela me disse! O quê?!
Ela queria o mundo que lhe foi prometido, queria, e queria agora. Enquanto o exército atirava bombas de gás, mais um portal da oportunidade se abria.
MINI PARENTESES TAMANHO MÉDIO: à cada decisão que tomamos (tanto a de ficar calado e tentar manter tudo como está, ou a de se rebelar) é como atravessar, ou não, um portal, tipo aquele da Caverna do Dragão que se abre num curto espaço de tempo pros personagens atravessarem de volta para o mundo real – coisa, aliás, que eles não conseguiam fazer, pois sempre acontecia alguma coisa errada.
A urgência tomava conta de suas entranhas, um milico se aproximava, mandando-a sair do meio da rua, ela o atacou. O milico assustado com a língua que insistia em penetrar na sua boca, quis atirar, mas não conseguia; só via um par de olhos verdes e lânguidos, que uma grossa camada de espinhas escondia. Desvencilhou-se daqueles braços estranhos e gritou:
- Mas tu é louca mesmo! O mundo caindo num buraco e tu só pensa nisso! - Saiu, arrumando a farda e tentando disfarçar o rebolado.
- Viado de merda! Vai brincar de soldadinho, seu filho da puta! – gritava, perplexa e humilhada, com as mãos sujas pelo xorume que escorria da lata de lixo da carrocinha de cachorro quente.
Quis fazer seu protesto também. Pegou uma bandeira vermelha e chamuscada, entre pedras e cacos de vidro. Sentou-se na escadaria, rasgou a calcinha azul cor de céu e enfiou o mastro da bandeira com toda a força, tanta força que não sentia as farpas da madeira a arranhar suas coxas, lábios e cavidades. O mundo ardia em chamas, mas o seu ventre era mais poderoso.
Na avenida deserta, com lojas fechadas e vira-latas assustados, o silêncio a reinar nos becos do Centro; deitou-se na escada, seu calor se espalhava pelo mármore frio, a mente confusa como a de quem acorda de um sonho real, ela simplesmente esperava.
Pelo alto-falante dum radinho de pilha abandonado no meio da rua, a voz de Alcione a confirmar a maldição de Tom Jobim rasgava o silêncio e reverberava nos copos plásticos atirados no chão: ... fundamental é mesmo amor, é impossível ser feliz sozinho....
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