Tetas Suicidas
TETAS SUICIDAS - PRA QUEM NÃO RESISTE À LEI DA GRAVIDADE - Para filosofias baratas, não há inseticida
20 Setembro, 2010
Vitrine Quebrada
Coloquei na vitrine toda a minha insegurança. Não vendi nem um pouco da ingenuidade, nem consegui doar minha coleção de decepções. Alguns folharam meus aprendizados, outros só acharam graça da minha lojinha de horrores. Eu vestia verde, e morria antes da esperança. A estante das carências quase sucumbiu sobre minha cabeça, mas permaneceu patética olhando o vazio no balcão do marasmo. Até chegarem quebrando tudo e o coração no pote das jujubas virou caquinhos cortantes.
Pomba
14 Agosto, 2010
Mentiras
presas nas suas identidades de mentira
cabelos amarelos, peitos de borracha
boca de silicone e uma roupa cara
todas as mulheres encontraram seus homens
presas na sua sexualidade de mentira
prazer de farmácia
atração em cirurgia plástica
não...eu nao sou de papel
não me faço em pedaços e palavras tolas
sou feita de sentir pela boca as pessoas
não, eu não sei viver
imaginando que a vida é boa
nem sei como é sempre esperar
que tudo permaneça como sempre foi
por que será, que todos andam pra lá
e eu fico num lugar em que não vejo mais ninguém.
por que todos se põe num patamar
se eu não sou de papel
27 Novembro, 2008
Aquela Coisa por Pomba/ Ilustração Pomba

Ela estava de quatro com a cabeça na privada, entretanto a lei da gravidade não era o suficiente para o elemento sucumbir à água fétida. Enfiou o dedo lá no fundo, só que a coisa adorava aquele lugar apertadinho. Arrastaram-se as semanas nessa agonia, e Jocasta foi ao médico. “Nada. Sua saúde está ótima”.
“Médico estúpido”, pensou. Ela não conseguia sentir nada além daquele corpo estranho pulsando em seu pescoço. Jocasta só pensava na sua criatura. Quando sua mãe morreu, não foi ao velório. Ninguém mais importava. A navalha refletia o espelho e vice-versa e entre esse duelo de imagens, a pobre tentou perfurar o esôfago, mas a primeira gota de sangue sentenciou sua fraqueza.
Buscou em bares, bebidas e machos que apaziguassem seus monstros. Conseguiu um whisky e um tipo de meia idade. Levou o kit para casa. Momento inusitado para a coisa descer. O pau na boca de Jocasta fez com que o empecilho se decidisse a sair. Correu para o banheiro e socou a cabeça na pia. Após um parto oral viu a cara de sua criatura. Pulsava, era do tamanho de um punho, com átrios e ventrículos banhados de sangue. O músculo salteava, buscando uma saída. Jogou-se da pia e foi rastejando até a porta do banheiro. Jocasta, percebendo do que se tratava aquela coisa, agora voluntária, agarrou-a e enfiou dentro da boca, catou o conhaque na sala e engoliu o pedaço vivo de carne. Não parecia nada com aquelas almofadas escritas “eu te amo”. O coração era feio e o amor não existia. Quanto ao tipo de meia idade, saiu de fininho.
Calçinha no chão, taças vazias, sangue na pia e a solidão. Jocasta venceu o combate, o inimigo agora pulsava em seu estômago, mas em breve, ela sabia, ele fugiria de novo.
19 Novembro, 2008
24 Julho, 2008
Cadê o ventre de Leila?
Leila Lopes negou e assim garantiu o top semanal do ranking de buscas do Google – afinal, quem era mesmo a professorinha do Renascer?
Foi com muito barulho que “Pecados e Tentações” foi lançado. Teve entrevista até no Jô Soares, as Brasileirinhas prometeram um pornô diferente, mais erótico, com texto, interpretação, enredo, tudo que remetesse aos tempos do “Garganta Profunda”. E, de fato, ao terminar o filme você sente que foi diferente; ok, ok, foi bom pra você, mas ainda sim fica uma sensação de que algo estava fora do lugar, ou melhor, que faltou mostrar alguns lugares.
Inspirado em Nelson Rodrigues, o “pornô com história” começa com a volta da dadivosa atriz Marlene (Leila Lopes) para casa – em um táxi novíssimo, figurino a anos 50/60 e fazendo caras e bocas sensuais para o nada. Um trombone monocórdio embala a cena, distante da trilha genial de “The Devil in Miss Jones”. Em casa, Marlene encontra o primo Bentinho/ “Dentinho” (Carlão Bazuca) - seminarista, tatuado e p.h.d em Kama Sutra – a irmã Ruth (Tamiry Chiavari) e o marido com pinta de gangster da Sessão da Coruja, Maneco. A cena do jantar em família, para dar o toque cabeça e rodriguiano do filme, é narrada de forma entediante e quase remete o espectador a doses cavalares de Virilon.
O resto é sexo. Leila Lopes deu dicas de interpretação pros atores (mas parece que eles não entenderam, mas encare isso como um elogio a essas alturas), tenta emanar sensualidade, mas só consegue arrancar risos ou estranhamento do ofegante espectador. Péssimos gemidos, faltam closes, falta anal, falta ventre, falta saco escrotal, sobram pêlos – ah é, é um pornô cabeça e os flagras da expressão facial da priminha safadinha são generosos, mas só esees.
Ponto para a irmã de Marlene! Ruth e seu marido gangster são a boa, palpitante, cardío-alucinógena surpresa do filme, de deixar Leila Lopes no chinelo – digna de Kikito. Yes, baby! Quando crescer, quero ser Tamiry!
"Pecados e Tentações" cumpre sua função utilitária. Um filme meia-bomba, e como um bom meia-bomba, só cutuca, mas não preenche. Ou pra manter a pretensão "cabeça", como diria Shakespeare: Much ado about nothing
(Zombie Blues)
10 Julho, 2008
04 Julho, 2008
Um dia de Macabéa
- Alguma coisa mudou. - sentenciou a cartomante, dos lábios de cobra, no ar de cigarro. Não, não há cortinas azuis estreladas, turbantes, vestidos brilhantes, nem unhas longas e vermelhas, cílios postiços, bola de cristal. É só uma sala meio iluminada, enfeitada por fotos e penduricalhos, onde no sofá descansa um tricô inacabado.
Do outro lado da mesa de vidro, num misto de alegria e desespero, ela revira cada gaveta de sua memória, os cantos empoeirados, o cofre de seus segredos, os papéis amassados com os rabiscos de hipóteses e devaneios. Nada! O que havia antes? O que tinha mudado? Isso, nem a velhinha, que embaralhava o tarô de Lenormand, poderia dizer.
Descendo as lombas do Centro, ainda encantada pelas palavras da cartomante que lhe prometera o mundo, não percebeu o clima tenso nas ruas: as crianças corriam para casa, os profetas do apocalipse anunciavam o caos, janelas com bandeiras vermelhas apedrejadas, bandeiras do PT eram queimadas, as lojas fechando, a imagem de Lula chorando tomou conta de todos os canais de tv, as prostitutas entediadas jogavam dama nas calçadas.
Lula renunciou por causa da pressão das forças ocultas, o vice iria assumir, a militância do PT estava indo para o Centro incendiar a prefeitura. E ela? Bem, ela caminhava incólume entre a multidão, em meio a fumaça das bombas, e os trapos vermelhos queimados; feliz com a sua vida futura (“alguma coisa mudou, alguma coisa mudou” repetia incessantemente).
Um batalhão de soldados se aproximava, os manifestantes fugiam, e ela ficou ali parada, a olhar o infinito, tal como uma Barbie – sim! Ela era uma Barbie mal vestida, a gritar, atônita, no meio da rua: assim como um filme que já sei o final, eu me pergunto o que devo fazer pra que aconteça o que ela me disse! O quê?!
Ela queria o mundo que lhe foi prometido, queria, e queria agora. Enquanto o exército atirava bombas de gás, mais um portal da oportunidade se abria.
MINI PARENTESES TAMANHO MÉDIO: à cada decisão que tomamos (tanto a de ficar calado e tentar manter tudo como está, ou a de se rebelar) é como atravessar, ou não, um portal, tipo aquele da Caverna do Dragão que se abre num curto espaço de tempo pros personagens atravessarem de volta para o mundo real – coisa, aliás, que eles não conseguiam fazer, pois sempre acontecia alguma coisa errada.
A urgência tomava conta de suas entranhas, um milico se aproximava, mandando-a sair do meio da rua, ela o atacou. O milico assustado com a língua que insistia em penetrar na sua boca, quis atirar, mas não conseguia; só via um par de olhos verdes e lânguidos, que uma grossa camada de espinhas escondia. Desvencilhou-se daqueles braços estranhos e gritou:
- Mas tu é louca mesmo! O mundo caindo num buraco e tu só pensa nisso! - Saiu, arrumando a farda e tentando disfarçar o rebolado.
- Viado de merda! Vai brincar de soldadinho, seu filho da puta! – gritava, perplexa e humilhada, com as mãos sujas pelo xorume que escorria da lata de lixo da carrocinha de cachorro quente.
Quis fazer seu protesto também. Pegou uma bandeira vermelha e chamuscada, entre pedras e cacos de vidro. Sentou-se na escadaria, rasgou a calcinha azul cor de céu e enfiou o mastro da bandeira com toda a força, tanta força que não sentia as farpas da madeira a arranhar suas coxas, lábios e cavidades. O mundo ardia em chamas, mas o seu ventre era mais poderoso.
Na avenida deserta, com lojas fechadas e vira-latas assustados, o silêncio a reinar nos becos do Centro; deitou-se na escada, seu calor se espalhava pelo mármore frio, a mente confusa como a de quem acorda de um sonho real, ela simplesmente esperava.
Pelo alto-falante dum radinho de pilha abandonado no meio da rua, a voz de Alcione a confirmar a maldição de Tom Jobim rasgava o silêncio e reverberava nos copos plásticos atirados no chão: ... fundamental é mesmo amor, é impossível ser feliz sozinho....

